segunda-feira, 17 de julho de 2017

A Revolta dos Perdidos



  A Revolta dos Perdidos foi um conflito que se estendeu entre o final da década de 1970 e o início da década de 1980. No final da década de 1960, formou-se um movimento guerrilheiro na região amazônica brasileira seguindo o traçado do Rio Araguaia. O movimento foi criado pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), uma dissidência armada do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que queria promover uma revolução socialista no Brasil iniciada no campo. Seguindo os exemplos ocorridos na China e em Cuba, os militantes da revolução estavam dispostos a combater as Forças Armadas brasileiras pelo ideal defendido. O confronto tornou-se direto em 1972, colocando em choque os 80 militantes da revolução e o exército nacional. O evento ficou conhecido como Guerrilha do Araguaia e terminou com a vitória das forças federais, restando menos de 20 revolucionários vivos. Entre os mortos, muitos ainda são considerados desaparecidos políticos.
  Alguns poucos anos mais tarde outro levante armado ocorreu. Organizado de modo silencioso, militantes se reuniram na área municipal de Piçarra do Pará, mesma região onde, até 1974, travou-se a Guerrilha do Araguaia. O novo movimento foi uma continuação do primeiro. Os moradores apoiaram o movimento organizado pelo PCdoB e contaram com a colaboração de grileiros e posseiros locais e promover uma revolta contra o Incra. Insatisfeitos com o trabalho de remarcação de lotes, eles marcharam até o acampamento dos trabalhadores do Incra para atacar pela manhã, mas dois traidores do movimento informaram a polícia, que logo se deslocou para o local e impediu o ataque. Os manifestantes foram obrigados a fugir pela mata, onde se esconderam.
  Por ser uma continuação da Guerrilha do Araguaia, este novo levante é conhecido também como Segunda Guerrilha do Araguaia. No entanto, em função da desordem, das desistências e das traições no desenvolvimento do plano de ataque, o evento é mais conhecido como Guerra dos Perdidos ou Revolta dos Perdidos. Dos quase 200 homens que se reuniram no dia 26 de outubro de 1976 para elaborar uma estratégia de ataque aos funcionários do Incra, apenas 36 se apresentaram para o combate efetivo. Surpreendidos pela polícia, que havia sido informada pelos dois traidores, foram forçados a se esconder na mata, sob muitos disparos de armas de fogo. Cessados os ataques da polícia, os sobreviventes revidaram. Mas o levante foi sufocado e vencido pelas tropas oficiais. Após o confronto, a polícia cercou os povoados vizinhos em busca de mais militantes do movimento. Porém relatórios do Serviço Nacional de Informação alegam que havia muitos policiais corruptos que retiravam famílias de suas casas à força, abusavam da violência e violentavam mulheres. A Revolta dos Perdidos se prolongou silenciosamente com opressões e algumas revoltas pontuais até o final da década de 1980.


segunda-feira, 10 de julho de 2017

A Guerrilha do Araguaia



   Nas décadas de 60 e 70, o Brasil enfrentou um período de perseguições, violência e censura, denominado Ditadura Militar. Amedrontados com o crescimento do comunismo no mundo, os militares tomaram o poder, derrubando o presidente João Goulart. A década de 60 foi marcada por um terror descomunal. Enfraquecidos, por volta de 68, os militantes, influenciados por táticas de guerra rural de Mao Tse-tung e Che Guevara, concentraram suas últimas forças no campo. Um grupo se alojou nas margens do Rio Araguaia, que abrange parte dos Estados do Pará, Maranhão e Goiás. No início da década de 70, estourava a guerrilha do Araguaia. 
   Organizada pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B) a guerrilha do Araguaia, a priori, foi um movimento de luta armada entre os comunistas e militares. Com a instauração do Ato Institucional nº 5 (AI-5), a situação nos centros urbanos se agravou. Era necessária uma nova estratégia. Desde 1960 os militantes já possuíam homens nas margens do Araguaia. Estes homens se integraram aos ribeirinhos, ensinando-lhes táticas militares. O que facilitou tal aproximação foi o repúdio contra latifundiários, seringueiros e capitães, por parte dos ribeirinhos, que eram informados pelos comunistas sobre as ligações entre esses posseiros e as forças da ditadura. Com interesses em comum, os ribeirinhos se aliaram aos comunistas, dando-lhes, em troca, comida, moradia e conhecimento sobre a área. Esse fator foi determinante no desenvolvimento da guerrilha. 
   A guerrilha contra os militantes se desenvolveu em três frentes, sendo que nas duas primeiras os comunistas saíram vencedores. Além de não conhecerem a área, os militares não tinham o prestígio da população local. Pelo contrário, eram odiados. Os comunistas se lançavam mata adentro sempre que alguma ameaça era detectada. E sem o apoio da população, o êxito militar era quase impossível. Quase, porque na terceira frente, os militares entraram no jogo. Meses antes do embate, infiltraram tropas entre os ribeirinhos e foram aprendendo sobre a área e colecionando informações sobre os militantes que ali se encontravam. Com algumas doses de crueldade, torturavam locais a fim de descobrirem mais sobre os militantes. E foi com essa “decência” que, em 1973, os comunistas foram cercados e as organizações de esquerda, derrotadas. Os militares se armaram com fuzis FAL (os comunistas possuíam espingardas), abusaram do uso de helicópteros e aviões, atearam fogo em todas as cabanas que encontraram pelo caminho, destruíram depósitos de alimentos que foram construídos nos povoados próximos, e, baseados em informações de delatores e ribeirinhos ludibriados, enfraqueceram os comunistas e os derrotaram. Venceram pelo cansaço. 
   A guerrilha do Araguaia não foi bem-sucedida, mas, no âmbito tático, pode-se dizer que foi vitoriosa. Mostrou falhas, tanto dos revolucionários quanto das tropas militares. Os militares espalhavam pela população calúnias sobre os guerrilheiros, dizendo que eram bandidos, cubanos, russos. A população, coagida, os delatava. E por parte dos guerrilheiros, a maior falha foi de subestimarem o inimigo por conta das duas primeiras frentes. 
   A imprensa só divulgou a guerrilha após seu fim. Censurada pela ditadura, não cobria os acontecimentos e muitos nem sabiam o que estava acontecendo no interior do país. Comunistas capturados eram fuzilados ou decapitados. Os militares transformaram as margens do Araguaia em um cemitério aberto.



segunda-feira, 3 de julho de 2017

A Guerrilha de Três Passos




   O golpe civil-militar de 1964 foi, evidentemente, um golpe contra o projeto trabalhista para o Brasil. No contexto de ditadura e repressão que se abateu sobre o país após o golpe, muitos militantes trabalhistas se organizaram com o intuito de resistir.Parte da historiografia brasileira (sempre militante, seja pra esquerda ou para a direita) procura colocar que movimentos guerrilheiros contra a ditadura só apareceram após o AI-5 de 1968. Há, é certo, historiadores vinculados a partidos políticos que procuram sempre apontar a experiência guerrilheira no Araguaia, por exemplo, como a “única” existente. Na verdade, antes mesmo de militantes pensarem em organizar um foco guerrilheiro no Araguaia, grupos trabalhistas, sob a inspiração de Brizola, se organizaram logo nos primeiros meses após o golpe. Foram estes trabalhistas brizolistas que organizaram a guerrilha de Três Passos (RS).
   Os objetivos da guerrilha de Três Passos eram acabar com o regime ditatorial antes mesmo dos militares “comemorarem” o primeiro aniversário do golpe – ou seja, em 31 de março de 1965 – e restabelecer a democracia no país para realizar as Reformas de Base, pregadas por Jango e Brizola. “Entre meados de 1964 e o começo de 1965, todos os planos de insurreição tinham um traço em comum: o levante, a coluna de combatentes, deveria partir da região Sul do Brasil, onde estavam as bases históricas do trabalhismo e o III Exército, responsáveis pelo sucesso da rede da Legalidade em 1961.”
   O grupo guerrilheiro de Três Passos foi liderado pelo coronel Jefferson Cardin Osório, ligado ao Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), e o sargento da Brigada Militar, Albery Vieira dos Santos. “À época do golpe de 1964, o coronel Cardim trabalhava como assessor técnico do Lóide Brasileiro em Montevidéu, e o segundo-sargento Alberi, da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, fugiu para o Uruguai. No ambiente de conspiração dos exilados no Uruguai, Cardim destacava-se porque, à revelia de muitos planos e estratégias, dizia a interlocutores que não admitia que o golpe de 1964 completasse um ano sem que houvesse qualquer reação. O trajeto escolhido para a coluna de combatentes, que subiria pelo noroeste do Rio Grande do Sul até Mato Grosso, deveu-se ao conhecimento que o sargento Alberi tinha da região, e também por ser uma área fronteiriça, que margeava a Argentina e o Paraguai, proporcionando rotas de fuga.”
   Além destas duas lideranças, também comandou o grupo o professor Valdetar Dorneles, ligado a um núcleo de “Grupo dos Onze”. Em entrevista à Rádio Legalidade, no dia 27 de março, Valdetar afirma que muitos setores da esquerda não reconhecem a guerrilha da qual participou e após a “anistia” de 1979, teve a sua recusada! Juntos, eles formaram o Movimento 26 de Março (M-26) – o nome foi escolhido devido a data prevista para o levante. Após alguns meses de planejamento, os guerrilheiros iniciaram a tomada da cidade de Três Passos. A partir dai eles iriam conclamar os nacionalistas, trabalhistas, socialistas e comunistas à derrubada do regime imposto.
   Na noite de 26 de março de 1965, esse grupo tomou o quartel da Brigada Militar, rendendo os brigadianos de plantão e se apoderando de armamentos e fardas. Em seguida, tomaram o presídio e os meios de comunicação local. “Além de deixar a cidade sem comunicação telefônica, uma vez que cortaram os fios da rede, invadiram a Rádio Difusora e obrigaram, sob a mira de uma metralhadora, os proprietários Benno Adelar e Zilá Breitenbach a colocar a emissora no ar para ler um manifesto contra a ditadura militar.” O manifesto, redigido por Cardim, falava em Forças Armadas de Libertação Nacional.
   Após a tomada de Três Passos, o grupo seguiu para Tenente Portela, onde também tomou um destacamento da polícia militar. Dali seguiram para Santa Catarina. A intenção dos guerrilheiros era chegar ao Paraná, onde Castelo Branco, primeiro presidente da ditadura, iria inaugurar a Ponte da Amizade, que ligava Brasil e Paraguai. Mas a esta altura o exército já estava sabendo do grupo guerrilheiro e uma batalha ocorreu na localidade de Leônidas Marques, no Paraná (há rumores de que havia um informante no grupo que repassava para as forças de repressão as atividades da guerrilha). Valdetar, em entrevista à Rádio Legalidade, lembra da chegada do grupo ao Paraná. Quase 50 anos após este episódio, ele diz que se o grupo tivesse chegado à Foz do Iguaçu poderia fazer com que Castelo Branco fugisse para o Paraguai, do outro lado da ponte, e desta forma o congresso deveria declara-lo “fugitivo” e assim o regime se desestabilizaria. Após esta batalha, o grupo guerrilheiro se dispersou. Aos poucos foram sendo capturados pelo exército e submetidos às mais cruéis torturas.



segunda-feira, 26 de junho de 2017

A Guerrilha do Caparaó


A Guerrilha do Caparaó foi um importante movimento armado de contestação ao regime militar no Brasil. Com a ascensão do governo ditatorial militar no Brasil em 1964, formaram-se vários grupos de contestação ao regime. Geralmente, esses grupos eram dotados de referências que seguiam a ideologia socialista. Na ocasião, o mundo encontrava-se polarizado entre capitalismo e socialismo no embate conhecido como Guerra Fria. O governo brasileiro havia assumido uma posição clara de alinhamento com o capitalismo estadunidense e de oposição às manifestações orientadas pela ideologia socialista.
Um dos grupos de contestação ao regime vigente na década de 1960 foi o chamado Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR). A origem deste movimento aconteceu em Montevidéu, capital do Uruguai, local onde os militantes receberam apoio financeiro de Cuba, único país das Américas alinhado com o socialismo soviético na época. Uma importante figura nessas negociações de apoio foi o político brasileiro Leonel Brizola, que recebeu sustento de alguns ex-militares brasileiros. Esse relacionamento entre o MNR e o governo cubano funcionou muito bem durante algum tempo, porém Cuba preferiu apoiar o militante revolucionário Carlos Marighella, suspendendo a ligação com o MNR.
O Movimento Nacionalista Revolucionário foi responsável por articular a Guerrilha do Caparaó. A ação foi coordenada para ocorrer na serra do Caparaó, localizada na divisa dos estados de Minas Gerais com Espírito Santo, tendo como inspiração o modelo de guerrilha que havia sido praticado em Sierra Maestra. O movimento ocorreu no Brasil entre 1966 e 1967. Inicialmente, a guerrilha era financiada pelo governo cubano, mas com a suspensão do auxílio, seus integrantes passaram a enfrentar dificuldades agudas. Foi preciso começar a roubar e abater animais variados para alimentação, chamando, assim, a atenção da polícia. Os serviços de inteligência do governo investigaram a fundo o movimento e o repreenderam no ano de 1967 através da ação da Polícia Militar de Minas Gerais. Quando o governo brasileiro agiu, os guerrilheiros já estavam em posição desfavorável e, praticamente, não foi necessário disparar nenhum tiro. Os vinte guerrilheiros foram aprisionados facilmente e alguns moradores da região também foram levados para investigação. Com a desarticulação a guerrilha, as Forças Armadas brasileiras tentaram criar a imagem de criminosos comuns, desqualificando os guerrilheiros como revolucionários. Entretanto a polícia mineira provou que se tratavam de ex-militares. O exército e as Forças Aéreas se uniram, então, em uma grande operação para caçar outros guerrilheiros que pudessem ter restado escondidos na serra. Ninguém foi encontrado, mas a operação foi uma grande demonstração de poder do exército brasileiro para desencorajar outros grupos revolucionários espalhados pelo país.
A Guerrilha do Caparaó acabou antes mesmo de entrar em ação efetiva. Os guerrilheiros permaneceram por meses na Serra do Caparaó desenvolvendo treinamento financiado por Cuba. As dificuldades enfrentadas com o fim do financiamento cubano deixou os guerrilheiros em situações complicadas e a população, assustada, denunciou o movimento.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Totalitarismo






     Totalitarismo é um sistema de governo em que todos os poderes ficam concentrados nas mãos do governante. Desta forma, no regime totalitário não há espaço para a prática da democracia, nem mesmo a garantia aos direitos individuais.

No regime totalitário, o líder decreta leis e toma decisões políticas e econômicas de acordo com suas vontades. Embora possa haver sistema judiciário e legislativo em países de sistema totalitário, eles acabam ficando às margens do poder.

Outras características dos regimes totalitários:

- Uso excessivo de força militar como forma de reprimir qualquer tipo de oposição ao governo;

- Falta de eleições ou, quando ocorrem, são manipuladas;

- Censura e controle dos meios de comunicação (revistas, jornais, rádio);

- Propaganda governamental como forma de exaltar a figura do líder.

Exemplos 

Como exemplos de totalitarismo, podemos citar os regimes nazista e fascista que vigoraram em alguns países da Europa (Itália, Alemanha, Espanha e Portugal) durante as décadas de 1930 a 1940.



segunda-feira, 12 de junho de 2017

Os Conflitos na Síria!

   


    Antes do início do conflito, muitos sírios se queixavam de um alto nível de desemprego, corrupção em larga escala, falta de liberdade política e repressão pelo governo Bashar al-Assad - que havia sucedido seu pai, Hafez, em 2000. Em março de 2011, adolescentes que haviam pintado mensagens revolucionárias no muro de uma escola na cidade de Deraa, no sul do país, foram presos e torturados pelas forças de segurança. O fato provocou protestos por mais liberdades no país, inspirados na Primavera Árabe - manifestações populares que naquele momento se estendiam pelos países árabes. Após seis anos de conflito, ainda não é possível ver uma luz no fim do túnel na Síria Quando as forças de segurança sírias abriram fogo contra os ativistas - matando vários deles -, as tensões se elevaram e mais gente saiu às ruas. Os manifestantes pediam a saída de Assad. A resposta do governo foi sufocar as divergências, o que reforçou a determinação dos manifestantes. No fim de julho de 2011, centenas de milhares saíram às ruas em todo o país exigindo a saída de Assad.
    À medida que os levantes da oposição aumentavam, a resposta violenta do regime se intensificava. Simpatizantes do grupo antigoverno começaram a pegar em armas - primeiro para se defender e depois para expulsar as forças de segurança de suas regiões. Assad prometeu "esmagar" o que chamou de "terrorismo apoiado por estrangeiros" e restaurar o controle do Estado. A violência rapidamente aumentou no país: grupos rebeldes se reuniram em centenas de brigadas para combater as forças oficiais e retomar o controle das cidades e vilarejos. Em 2012, os enfrentamentos chegaram à capital, Damasco, e à segunda cidade do país, Aleppo. O conflito já havia, então, se transformado em mais que uma batalha entre aqueles que apoiavam Assad e os que se opunham a ele - adquiriu contornos de guerra sectária entre a maioria sunita do país e xiitas alauítas, o braço do Islamismo a que pertence o presidente. Homs, chamada de 'capital da revolução', foi uma das cidades que mais sofreram. Isto arrastou as potências regionais e internacionais para o conflito, conferindo-lhe outra dimensão. Em junho de 2013, as Nações Unidas informaram que o saldo de mortos já chegava a 90 mil pessoas.
    A rebelião armada da oposição evoluiu significativamente desde suas origens. O número de membros da oposição moderada secular foi superado pelo de radicais e jihadistas - partidários da "guerra santa" islâmica. Entre eles estão o autointitulado Estado Islâmico e a Frente Nusra, afiliada à al-Qaeda. Os combatentes do EI - cujas táticas brutais chocaram o mundo - criaram uma "guerra dentro da guerra", enfrentando tanto os rebeldes da oposição moderada síria quanto os jihadistas da Frente Nusra. Também combatem o Exército curdo, um dos grupos que os Estados Unidos estão apoiando no norte da Síria. Desde 2014, os EUA, junto com o Reino Unido e a França, realizam bombardeios aéreos no país, mas procuram evitar atacar as forças do governo sírio. Já a Rússia lançou em 2015 uma campanha aérea com o fim de "estabilizar" o governo após uma série de derrotas para a oposição. A intervenção russa possibilitou vitórias significativas das forças sírias. A maior delas foi a retomada da cidade de Aleppo, um dos principais redutos dos grupos de oposição, em dezembro de 2016.  Os rebeldes moderados têm requisitado armas antiaéreas ao Ocidente para responder ao poderio do governo sírio. Mas Washington e seus aliados têm procurado controlar o fluxo de armas por medo de que acabem indo parar nas mãos de grupos jihadistas.
    Na era Obama, os Estados Unidos culpavam Assad pela maior parte das atrocidades cometidas no conflito e exigiam que ele deixasse o poder como pré-condição para a paz. Trump, por sua vez, dizia que derrubar o presidente sírio não era uma prioridade, mas sim derrotar o Estado Islâmico - e que Assad era um aliado nessa batalha. Após o aparente ataque químico ocorrido na última terça, porém, seu discurso mudou. Já a Rússia apoia a permanência de Assad no poder, o que é crucial para defender os interesses de Moscou no país. O Irã, de maioria xiita, é o aliado mais próximo de Bashar al-Assad. A Síria é o principal ponto de trânsito de armamentos que Teerã envia para o movimento Hezbollah no Líbano - a milícia também enviou milhares de combatentes para apoiar as forças sírias. Estima-se que os iranianos já tenham desembolsado bilhões de dólares para fortalecer as forças sírias, provendo assessores militares, armas, crédito e petróleo. Contrapondo-se à influência do Irã, a Arábia Saudita, principal rival de Teerã na região, tem enviado importante ajuda militar para os rebeldes, inclusive para grupos radicais. Outro aliado importante dos rebeldes sírios, a Turquia tem buscado limitar o apoio dos EUA às forças curdas, que acusam de apoiar rebeldes do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão). Os rebeldes da oposição síria têm ainda atraído apoio em várias medidas de outras potências regionais, como Catar e Jordânia.
    Um fator chave é a intervenção de potências regionais e internacionais. Seu apoio militar, financeiro e político tanto para o governo quanto para a oposição tem contribuído diretamente para a continuidade e intensificação dos enfrentamentos, e transformado a Síria em campo para uma guerra indireta. A intervenção externa também é responsabilizada por fomentar o sectarismo no que costumava ser um Estado até então secular (imparcial em relação às questões religiosas). As divisões entre a maioria sunita e a minoria alauita no poder alimentou atrocidades de ambas as partes, não apenas causando a perda de vidas, mas a destruição de comunidades, afastando a esperança de uma solução pacífica. Rebeldes da oposição moderada têm recebido ajuda limitada de potências ocidentais A escalada de terror causada por grupos jihadistas como o EI - que aproveitou a fragilidade do país para tomar o controle de vastas partes de território no norte e leste - acrescentou outra dimensão ao conflito. 
   O enviado da ONU para a Síria, Steffan de Mistura, estimou que a guerra já matou 400 mil pessoas. Para a organização Observatório Sírio de Direitos Humanos, sediada em Londres, até setembro a cifra de mortos passava de 465 mil. Já o Centro Sírio para Pesquisa de Políticas, outro grupo de estudos, calcula que o conflito já tenha causado a morte de mais de 470 mil pessoas. Não há cifras confiáveis para estabelecer o número de mortos no conflito sírio. Segundo a ONU, até fevereiro de 2016 mais de 5 milhões de pessoas haviam fugido do país - a maioria mulheres e crianças. O êxodo de refugiados, um dos maiores da história recente, colocou sob pressão os países vizinhos - Líbano, Jordânia e Turquia. Cerca de 10% deles buscam asilo na Europa, provocando divisões entre os países do bloco europeu sobre como dividir essas responsabilidades. Quase metade de população síria - 23 milhões antes do conflito - foi deslocada pela guerra E as estatísticas terríveis não param por aí. A ONU disse que são necessários US$ 3,2 bilhões para prover ajuda humanitária a 13,5 milhões de pessoas - incluindo seis milhões de crianças - no país. Além disso, 70% da população não tem acesso a água potável, uma em cada três pessoas não consegue suprir as necessidades alimentares básicas, mais de 2 milhões de crianças não vão à escola e uma em cada cinco indivíduos vive na pobreza. As partes em conflito têm complicado ainda mais a situação ao recusar o acesso das agências humanitárias aos necessitados.

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segunda-feira, 5 de junho de 2017

A Inconfidência Mineira



  No século XVIII, a ascensão da economia mineradora trouxe um intenso processo de criação de centros urbanos pela colônia acompanhada pela formação de camadas sociais intermediárias. Os filhos das elites mineradoras, buscando concluir sua formação educacional, eram enviados para os principais centros universitários europeus. Nessa época, os ideais de igualdade e liberdade do pensamento iluminista espalhavam-se nos meios intelectuais da Europa.
Na segunda metade do século XVIII, a economia mineradora dava seus primeiros sinais claros de enfraquecimento. O problema do contrabando, o escasseamento das reservas auríferas e a profunda dependência econômica fizeram com que Portugal aumentasse os impostos e a fiscalização sobre as atividades empreendidas na colônia. Entre outras medidas, as cem arrobas de ouro anuais configuravam uma nova modalidade de cobrança que tentava garantir os lucros lusitanos.
No entanto, com o progressivo desaparecimento das regiões auríferas, os colonos tinham grandes dificuldades em cumprir a exigência estabelecida. Portugal, inconformado com a diminuição dos lucros, resolveu empreender um novo imposto: a derrama. Sua cobrança serviria para complementar os valores das dívidas que os mineradores acumulavam junto à Coroa. Sua arrecadação era feita pelo confisco de bens e propriedades que pudessem ser de interesse da Coroa.
Esse imposto era extremamente impopular, pois muitos colonos consideravam sua prática extremamente abusiva. Com isso, as elites intelectuais e econômicas da economia mineradora, influenciadas pelo iluminismo, começaram a se articular em oposição à dominação portuguesa. No ano de 1789, um grupo de poetas, profissionais liberais, mineradores e fazendeiros tramavam tomar controle de Minas Gerais. O plano seria colocado em prática em fevereiro de 1789, data marcada para a cobrança da derrama.
Aproveitando da agitação contra a cobrança do imposto, os inconfidentes contaram com a mobilização popular para alcançarem seus objetivos. Entre os inconfidentes estavam poetas como Claudio Manoel da Costa e Tomas Antonio Gonzaga; os padres Carlos Correia de Toledo, o coronel Joaquim Silvério dos Reis; e o alferes Tiradentes, um dos poucos participantes de origem popular dessa rebelião. Eles iriam proclamar a independência e a proclamação de uma república na região de Minas.
Com a aproximação da cobrança metropolitana, as reuniões e expectativas em torno da inconfidência tornavam-se cada vez mais intensas. Chegada a data da derrama, sua cobrança fora revogada pelas autoridades lusitanas. Nesse meio tempo, as autoridades metropolitanas estabeleceram um inquérito para apurar uma denúncia sobre a insurreição na região de Minas. Através da delação de Joaquim Silvério dos Reis, que denunciou seus companheiros pelo perdão de suas dívidas, várias pessoas foram presas pelas autoridades de Portugal.
Tratando-se de um movimento composto por influentes integrantes das elites, alguns poucos denunciados foram condenados à prisão e ao degredo na África. O único a assumir as responsabilidades pela trama foi Tiradentes. Para reprimir outras possíveis revoltas, Portugal decretou o enforcamento e o esquartejamento do inconfidente de origem menos abastada. Seu corpo foi exposto nas vias que davam acesso a Minas Gerais. Era o fim da Inconfidência Mineira.
Portanto, mesmo tendo caráter separatista, os inconfidentes impunham limites ao seu próprio projeto. Não pretendiam dar fim à escravidão africana e não possuíam algum tipo de ideal que lutasse pela independência da “nação brasileira”. Dessa forma, podemos ver que a inconfidência foi um movimento restrito e incapaz de articular algum tipo de mobilização que definitivamente desse fim à exploração colonial lusitana.